Papo Editorial com Pedro Almeida

Papo Editorial com Pedro Almeida

22-06-21 | Opinião | Faro Editorial |

Os nerds já não são mais os mesmos

NERD – Décadas atrás o termo era CDF (cu de ferro): Era uma pecha, um estigma, um defeito que geralmente se atribuía a um menino (sim, quase sempre era um menino – o bullying era de meninos para meninos) que era quieto na sala, prestava atenção nas aulas, sentava-se sempre mais à frente, estudava para as provas e, milagre! Tirava as melhores notas.

Isso criava admirações e revolta. Depois de um tempo, os malandros mais expertos aproximavam-se deles para conseguir que fizessem seus trabalhos ou cola nas provas. A relação de troca era por proteção do bullying, mesmo que fosse um acordo justamente com o agressor.

Depois, os CDFs evoluíram para outro estágio e foram chamados de nerds: culpa do imperialismo estadunidense… (o riso aqui é pro estadunidense mesmo), que exportou o termo.  Então os nerds evoluíram novamente: se formaram, conseguiram os melhores empregos (ou criaram empresas) e se tornaram os geeks, alguns deles, magnatas que se vingaram dos malandros obtendo uma renda melhor e, com sorte, empregando os valentões para os serviços braçais.

Parecia a desforra perfeita. Da desgraça para o estrelato em três décadas: isso ocorreu do final dos anos de 1970 pros anos 2000. Entre os maiores expoentes de geeks nessa época estão Steve Jobs e Bill Gates.

Uma mudança de imagem entre os nerds e geeks pode ser vista no Brasil na foto inserida na capa do primeiro livro publicado pela Editora Fundamento.

Como pode se ver, a rainha do baile não estava mais interessada no garoto tatuado que aos 16 fumava, praticava pequenos furtos e tomava pertences dos mais fracos. Ela sabia que era burrice ficar com cafajeste.

O livro ficou por alguns anos na lista dos mais vendidos e significa que a mensagem dessa capa fez sentido para MUITAS pessoas. O autor se tornou um importante colunista de alguns veículos de comunicação do país. Seu pós-doutorado foi do MIT, aos 34 anos!

Hoje, há muitos que gostam de ser chamados de nerds.  Mas tem muito nerd aí que não tem nada da raiz: compenetrado, estudioso, interessado em ciências e cultura geral. Uma grande parcela acha que é nerd porque sabe a ordem dos filmes Stars Wars. Ou tem a coleção dos gibis da Marvel e DC, das primeiras edições ou coleciona Funko.  Bem, tudo que vira moda atrai mais gente e isso não é nenhum problema, mas essas coisas não tornam a pessoa um nerd, por isso achei importante resgatar o conceito.

Aliás, lançamos um livro sobre isso: Pense como um nerd, de Bill Nye, talvez o maior representante da classe Nerd no mundo. Na obra, ele elenca as vantagens dos nerds sobre as demais pessoas, e como todos podem se valer desse lado mais curioso, inventor, para lidar e resolver com mais facilidade qualquer problema e situação.

Antes de publicar este texto pensei se valeria a pena entrar nessa treta. Hoje as pessoas estão tão raivosas que podem querer costurar sua foto pública na boca de um baby Yoda pra tentar ameaçar sua vida. Mas que desgraça eu estaria aqui, ocupando o seu tempo, em te fazer ler um texto se não fosse para discutir ideias, propor olhares diferentes?

Então lembro de um jornalista que publicou, no caderno de cultura de um grande veículo, uma matéria sobre George R.R. Martin. No mesmo dia, seu artigo foi metralhado com reclamações por conta de uma informação incorreta. Ele disse: escrevo algo sobre Cecília Meirelles e três pessoas comentam. Escrevo sobre alguém da Cultura Pop e recebo dezenas de comentários raivosos.  A Editora do Guerra dos Tronos respondeu: bem-vinda ao meu mundo!

O que sonho? Que os nerds recuperem seu lado inventivo. Há muitas formas em que a tecnologia permite que o conhecimento se torne mais democrático. Quantas pessoas não estão na internet postando vídeos e demonstrando como podemos solucionar pequenos ou grandes problemas sem necessitar de um serviço especializado, sem precisar de ferramentas especiais? Recordo-me de um post em que o cara reclamava que a tampa do reservatório de esguicho para o para-brisa de seu carro, de marca francesa, não durava mais que um ano (ressecava e quebrava) e ele tinha de comprar outra. Uma tampa de plástico que custava mais de 150 reais. Até que percebeu que a tampa de Gatorade era uma perfeita substituição e durava mais que a original. Quantas vezes não podemos resolver problemas assim?

Um pouco de conhecimento de química, física, mecânica, história natural e popular ajudam a entender o funcionamento das coisas e tornam a vida bem mais interessante. Ops. Ato falho. Confessei. Fui um CDF, mas ando medicado.

 

Até a próxima coluna!

 

 

2 respostas para “Papo Editorial com Pedro Almeida”

  1. Sandroka disse:

    Texto #bão demais de ler, parece bate-papo.
    Lembrar da época do bullying na escola… Reprisar que tudo tá misturado hj em dia… E pensar que cancelar está mais fácil que racionar, rsrsrs.
    Não conhecia “Pense como um nerd”, mas, quem mandou ler o blog? Kkkk
    Mais um na lista. \o

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